quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Ela e o gosto de biotônico Fontoura

Ela foi embora sem olhar pra trás. Há tempos eu tentava aprender essa habilidade, e nunca consegui. Ela simplesmente se vai, não pára para pensar, não diminui o passo, não se detém fingindo que está arrumando o cabelo, nada. Nas pequenas despedidas, isso já sempre me incomodou. De manhã, ela saia pro trabalho, com o seu sempre ar de importância. E não se virava para mim, não dava o “tchau” tardio e cretino. Uma vez decidi a observar por mais tempo. Sempre acreditei que, em algum momento, em que eu não estivesse olhando, ela me jogaria a sua saudade indigna. Não. Não fez. Ela é totalmente capaz de ir embora sem fraquejar. Quantas vezes, então, ela entrou em um táxi e passou ao meu lado? Ela se lembrou de que eu estava na rua à espera de qualquer sinal de paixão infantil? Talvez. Mas mesmo assim não recebi nada em troca da minha esperança por migalhas.

Houve alguns momentos em que tive que ir embora. Poucos, mas por vezes bastante intensos, com gosto de ferro do biotônico Fontoura. Eu sabia que ela não ia me olhar descer as escadas, por exemplo. Quando eu me virava para despejar sobre ela toda a minha fraqueza, a porta já estava se fechando, e ela talvez já estivesse à procura do controle remoto. E eu só queria o ultimo olhar. Parei, então, de pedir por ele nesse silencio sufocante da derrota diária. Eu me decidi a alcançar os brios a que ela já estava tão acostumada. O que, de qualquer forma, era impossível. Eu já tinha descido a indignidade tantas vezes ao sempre me virar numa expectativa que caiu repetidamente por terra, que nada diminuiria meu crime. De qualquer maneira, ela nunca saberia que eu fazia tanto esforço para segurar os músculos do meu pescoço. Talvez ela nunca sequer soubesse que eu me virei, que eu deixei de me virar ou que essa pequeneza era tão importante pra mim. Mas eu queria que, se algum dia ocorresse a ela pensar nisso, que eu fosse sempre um símbolo de quem nunca se curvou desgraçadamente às ânsias do amor, como ela era. Ou de quem talvez nunca nem mesmo tivesse tido ânsias tão baixas, ela.

Mas na partida derradeira, nessa sim, nessa eu merecia um olhar que fosse, de consolo, de tristeza, de desgaste, de alegria, de olhar. Eu queria só um olhar de olhar. E acompanhei quando ela entrou, quando se sentou, quando tirou seu casaco. Esperei longos e cansativos cinco minutos. Ela não se lembrou de que eu poderia estar ali ou não quis perder a dignidade solene do momento em que eu, em pé na estação, olhava para dentro do trem como se procurasse algo. Eu não procurava nada, queria que me encontrassem. Por fim, faltavam ainda três minutos para a partida. Me aprumei e desci as escadas. Afinal, ela havia demonstrado mais uma vez que a postura na despedida é maior que a própria despedida. E eu, inconsolável, não queria que ela fraquejasse no ultimo minuto e visse que fraquejei por minutos seguidos. Me detive, de qualquer maneira, no andar de baixo. E ouvi o trem dando a partida. Ouvi com os olhos e meu rosto estava de novo na direção oposta a do meu corpo. Mas ela não saberia.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Ela e o Vegetal

A gente se entende tão bem que até dói. Aqueles clichês mesmo a que já se acostumou a literatura. Ela vê, eu penso. Ela estuda, eu aprendo. Ela geme, eu sinto. E eu sei sempre que sempre estou fazendo coisas erradas. Porque eu a entendo tão bem quando ela finge que eu sou só mais alguém que ela encontra na rua todo dia. Porque ela não se lembra nunca do que a gente combinou ontem. Porque ela fala comigo por pena da minha completa incapacidade de acompanhar o raciocínio social mais lógico. Porque ela tem tanta paciência pra me explicar qual a diferença entre os adesivos que ela quer colocar nas paredes, que pra mim já estão bonitas do jeito que estão. Mas ela diz que são sem vida, e por isso sei que estou sempre fazendo coisas erradas. Eu sou sem vida. Só tenho vida mesmo em algum lugar dentro da minha cabeça, mas fico vegetando o resto do tempo.

E a gente se entende tão bem que até dói. Aqueles clichês que as músicas de romance devem descrever, mas que eu nunca ouço. Porque me dói que eu não entenda esses clichês como eu gostaria. E me dói mesmo que ninguém acredite que as coisas me doem. E aí eu sei como se sentem as árvores quando tatuam nelas corações com letras dentro. Dói, até nos vegetais. Ela entende, entretanto, quando me dói. Às vezes ela finge que não entendeu, porque ela sabe que eu não me acostumo com essa mania que ela tem de me ler. E ela quer que eu fique confortável, quase sempre. Quase sempre. Mas eu estou mesmo sempre fazendo coisas erradas até como vegetal. No verão eu não tenho a sombra que ela gostaria. E eu nem gosto tanto assim de verão. E ela tem aquele olhar de dúvida de sempre. Nunca sabe se deve sentar debaixo de mim mesmo assim, porque eu valho a pena por algum motivo que só ela entende. Ela tem paciência, isso sim é o que ela tem. Todos dizem que não. Que ela é agitada, que pensa tão rápido que esquece o que pensou. Mas eu sei que ela tem paciência.

E a gente dói tanto que até se entende. E ela faz greve de mim, vez ou outra. Não quer me atender, não quer me ver. Diz que não fala com coisa verde, que isso é coisa de doido. Mas eu espero. Eu sempre espero. Porque eu gemo, e ela sente.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Feijão e Neve

12.00: Finalmente dormi até tarde. Hmmmmmmmmmmmmmm. Que delicia de soninho. Quarta-feira, e eu posso dormir até 12.00. Hoje o dia promete. Feijoada com os amigos. Feijããããããão! Foi o que eu ingenuamente pensei numa quarta-feira qualquer.

15.00: Em direção à casa da amiga onde a feijoada seria servida. Antes de chegarmos lá, todavia, preciso contar uma coisa. Temos uma amiga de muletas. Ela estava rezando, se apoiou muito nos joelhos na hora do Pai Nosso e fudeu um deles. A gente se reveza, então, pra cuidar da nossa beata. Esse era o meu dia, mas eu estava de tão bom humor, uma vez que dormi até tarde, que não me importei. Isso até ver que do carro até a porta da casa da moça não tinha um passeio, tinha uma pista de patinação. Eu olhei pra beata, olhei pra pista de patinação... (depois que cai a neve, se chove, é só botar os patins e se divertir) A primeira reação que eu tive foi sair correndo na frente com a feijoada. Eu tinha que deixar ela a salvo antes de qualquer coisa. Dito e feito. Deixei o feijão em casa e fui atrás das muletas. Não vou me alongar muito nisso, pois na vida real já se alongou o suficiente: meia hora pra cem metros. Dá pra acreditar? O resultado foi isso aí:





18.00: Tudo comido. Passando mal pós-feijão. Conversa vai, conversa vem. Um rapaz sem o que fazer resolve brincar com o chifre de diabo de uma fantasia de criança. Criança cuja mãe era a dona da casa em que estávamos. O que esse singelo mineiro faz com a delicadeza de suas mãos? QUEBROU O CHIFRE. Olhou pro lado, olhou pro outro... O que fazer? Tentou encaixar de um jeito, tentou encaixar de outro. Ui, de outro deu certo. O resultado foi o seguinte: ele falou que desse jeito era mesmo mais contemporâneo, mais elegante. Diaba da moda.

A dona da casa, claro, não viu quem foi. E eu acabei sendo culpada do fato porque eu usei o chifrinho pra performances. De qualquer forma, aqui está a prova (com atenção dá pra ver que ele está encaixando o chifre na posição equivocada):


18.30: Bora pra outra casa fazer festa? Booooora... Chegamos lá, bebemos o vinho quente típico da Alemanha (Glühwein), cerveja. E tinha um danado dum cachorrinho feio que nem o demônio. Eu e meu amigo do chifre ficamos a noite inteirinha fazendo piadas com o pobre coitado. Mas ele saberia como se vingar.


01h00. Tínhamos pedido um táxi há mais ou menos duas horas. Ele não chegava. Disseram que era culpa de um tal de Schneechaos (caos da neve), e eu achava mesmo que era culpa da preguiça dos taxistas de sair de casa em dia tão nevante. Afinal, os ônibus ainda estavam rodando e havia muitos carros na rua. Comparando como sempre: se fosse no Brasil, os taxistas tinham era contratado o homem da neve pra não deixar parar de nevar. Ninguem ia querer pegar trem, e eles iam faturar um babado. Ok. Na Alemanha, é diferente. "Dormimos aqui ou vamos embora?" Foi o que a moça manca e operada me perguntou quando percebemos que seria tarde demais pra voltar pra casa voando." Hm... Ok, ok. Vamos pra casa, não pode ser tão difícil assim."

Saímos de casa felizes e sorridentes. As primeiras montanhas de neve não foram mais difíceis que divertidas. Ela com suas duas muletas sorridentes, eu preocupada com o fato de o cachorro ter mijado no meu pé. Preocupada, não. Puta! Saindo de onde estávamos pra ir pra casa, um cachorro de tamanho bem menor do que uma ratazana do Mercado Central de Belo Horizonte (lembram do cachorro feio como o diabo?) mija no meu pé. Como? Exatamente no intervalo entre tirar o sapato de casa e colocar o sapato de rua. Quando eu percebi, já estava toda mijada. Maravilha. Ele se vingou. E eu tive que ir à neve com o pé molhado de xixi. Por que ele não mijou um pouco antes? Porque ele não queria que desse tempo de secar. Será que o pé vai congelar? Era o que eu estava pra descobrir. E o pior é não poder xingar a dona do cachorro, que afinal não tinha culpa alguma e me recebeu com carinho em sua residência. É a vida.

Voltando a neve, ao ponto de ônibus, ao frio... Conseguimos finalmente alcançar o ponto de ônibus pretendido, ainda que a neve não estivesse simples de ser ultrapassada, ainda que as muletas próprias para a neve não fossem próprias pra taaaanta neve. Eu já havia olhado o horário do trem. "Tá tudo certo! Em poucos minutos, ele deve passar..."

01h20: trem? Que trem?

01h40: que merda de trem é esse que não passa?

Nesse meio tempo, chegaram ao ponto dois moços. Um muito conversado, queria saber de onde vinham as moças simpáticas e bronzeadas – pros padrões alemães, claro. O outro, caladão, não falou nada, mesmo. Só ficou olhando com uma cara de bobão. Conversamos um pouco com aquele que queria conversar: ele perguntou se já tínhamos visto neve, perguntou o que aconteceu com o pobre joelho da manca. Eu não conversei muito, só o suficiente. Ela, mais que o suficiente. Inclusive em português. Ainda que more há alguns anos na Alemanha, ela ainda tem aquele desejo de falar português como segredo. A gente pode falar português pelas ruas e dizer coisas realmente baixas. Palavrões, mal dos outros, pornografias... tudo que vier à cabeça e parecer engraçado na hora, pros outros brasileiros também rirem. Quantas vezes não ouvi alguém xingando alguém com um sorriso nos lábios: basta sorrir bem gostoso e dizer entre os dentes “sua puta, filha da mãe, desgraçada, quenga”. Funciona. Foi o que ela fez. Rimos.

02:00: Lá vem um ônibus do outro lado da rua. Não passava mais trem por causa do tanto de neve nos trilhos. tínhamos que ir de ônibus. E saímos correndo, atravessando pelas linhas do trem. Quer dizer, tentamos sair correndo. Ela estava mais era coxeando mesmo. Mas tudo bem. Alcançamos o ponto, mas adivinhem? Onibus errado. Tudo certo. Pelo menos agora sabemos que ônibus continuam passando e que teremos alguma chance de chegar a casa. Nesse momento, o caladão (lembram dele?) fala algo sobre o frio na Alemanha, ou faz uma comparação entre o tempo na Alemanha e no Brasil. Qual o problema? Em PORTUGUÊS!!!!!!!!

"Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah! Ele fala português ou ele decorou essa frase?" Não sabíamos e não queríamos descobrir. Não demos papo pra ele em português. Não, não, não. Mas, obviamente, eu ri sozinha mais um tempo e ela ficou sem reação, enquanto ele continuava a olhar com aquela cara indecifrável de bobão – seria cara de triunfo? Melhor não pensar. Aqui, entretanto, eu gostaria de lembrar que eu avisei a ela que alguém poderia estar nos entendendo. Ela deu de ombros. Sem mais.

--:-- Agora já era tão tarde que eu não queria mais olhar o relógio. O que faremos? Ok, ok. Nos rendemos. Vamos voltar à casa da amiga do cachorro mijão. Eu sei, ele vai querer dormir com a gente. Afinal, não é lá que ele dorme? Onde a cama estava arrumada? Rs. Eu sei, antes agüentar um cão do inferno quente do que um frio do cão – huhuhu. Como eu to engraçadinha. Isso porque vocês não sabem o que passei... "Liga pra ela, liga pra ela..." "Ok, tudo certo. Ainda temos camas, vamos voltar."

Mais ou menos dez minutos depois, já a meio caminho do lugar onde ganharíamos camas felizes, o que aparece como um ponto de esperança? Um trem, indo em direção ao ponto. Eu gritei: Um treeeem... E ela provou que finge ser manca e correu desesperadamente, há 05 km por hora. Alcançamos o ponto. E?! Era o trem errado... era o trem errado... era o trem errado... E, segundo constam nos autos, o joelho dela já estava latejando. E o meu pé? Que pé? Eu não sentia mais meu pé. No máximo, o cheiro que ele exalava.

"Ok, agora tá decidido. Aconteça o que acontecer, vamos dormir com o cachorro. Não dá pra ficar mudando de idéia assim. Certo?" Certo. Novamente há meio caminho, já tínhamos caminhado o suficiente pra uma eternidade. O que me aparece como um ponto de esperança? Um ônibus, indo em direção ao ponto. Eu gritei: Um onibuuuuuuuus... E ela provou que finge ser manca e correu desesperadamente, há 05 km por hora. Antes de alcançar o ponto, entretanto, uma tragédia. Ela escorregou. Eu estava atrás e consegui segurar – há tempo de ela não cair debaixo do ônibus que já passava do nosso lado. Ela entrou no ônibus, agora com hemorragia interna no joelho operado (isso só fomos descobrir quando ela foi ao medico no dia seguinte), e eu ria. E ela chorava. E eu fiquei com dó e ela riu. No fim, ela me perguntou com um olhar de quem sentia dor e não tava mais entendendo as coisas direito:

“Acontecesse o que acontecesse, nós não íamos dormir com o cachorro?” Ai ai.

Descemos do ônibus, mas, claro, no ponto errado. Um ponto antes! Essa foi minha culpa. Ela já tava fudida mesmo, e eu não tinha pé. Então, ela tirou uma foto minha pra eu postar no blog nossas aventuras pelo dia do Schneechaos.


Eu amo Jena. Eu amo quarta-feira!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Ah, Berlim.




Chegar em Berlim teria sido uma emoção, não fosse o fato de que eu babei de dormir a viagem inteira e, quando chegamos, eu so conseguia pensar: merda, eu dormiria mais umas cinco horas. Fato. Eu estava cansada. Devido à danada daquela doença de que já lhes contei. Tomei um remédio que importei do Brasil, mas esqueci que ele dava um soninho...


O Gustavo, por outro lado, não havia tomado remédio algum. Mas, coitado, tão meu amigo. Tao querido... Foi logo colocando em pratica o amor que tem por mim, se condoeu de me ver naquela situação, e me acompanhou. Delicia.







Depois, bom, que eu vi que não tinha mais jeito mesmo de dormir, peguei minha mala, entrei pro Hostel e resolvi relaxar. Já que já to em Berlim mesmo, vamo ver o que tem nessa cidade. Saimos pra passear.

Eu sabia que aquela era a cidade dos meus sonhos mais distantes de realização, e eu queria ver tudo, tudo. Alguem sugeriu andarmos por ai, comermos alguma coisa. Dito e feito. Qual a impressão que eu tive da cidade dos meus sonhos? Não sei. Eu fiquei tão apavorada com o tamanho do lugar que meu alarme brasileiro ligou: Assalto, morte, atropelamento. Fato que me acostumei com a vida tranquiiiila em Jena. Nada com que se preocupar, ninguém pra te matar. E em Berlim, plim. O meu botão de “sempre alerta” foi ligado.

Mas foi ligado com terror. Era uma excursão. Trinta ou quarenta pessoas. Que saíram pra passear, umas 15? Metade daqui desses lados do mundo e a outra metade de chineses. Todas meninas. Andavam como se estivessem em Jena. Ai, quanta tranqüilidade. Conversavam, riam, nem olhavam pros lados. Na hora, eu e Gustavo nos afastamos um pouco do grupo, a uns passos de distancia. Queriamos que elas andassem a uma distancia suficiente pra que víssemos toda a área periférica a elas. Ai, ai. Dá pra entender porque só os estrangeiros não sobrevivem no rio.

Nesse dia, conheci as moças da bota branca.



A gente andando calmamente na rua, e um monte de moças da bota branca nas calçadas. Em primeiro lugar, eu pensei : hm... Cambistas? Isso porque todas elas têm também pochetes, e tinha um moço conversando com uma e que, logo depois, ofereceu entrada grátis pras meninas singelas da minha excursão. Bom. Continuei andando, andando. E vi que as moças da bota branca não diminuíam. Não é possível que tem tanto cambista de bota branca assim na Alemanha. E, de repente, plim! Putas. Refleti, refleti, dava uma olhadinha aqui, outra aculá. Fato é: um taaaaanto de mulher gata. Mesmo! De verdade. Eu não sou nenhuma especialista no assunto (afinal o que fazer com uma puta? Hahaha), mas eu tenho certeza que aqui o negócio é melhor que no Brasil. Eu estava lá, embasbacada com tamanha diversidade e, princiapalmente, com o fato de ser absolutamente normal andarmos na mesma rua em que elas estavam, e... de repente... Uma dessas moças começa a andar exatamente do meu lado e a falar com alguém. Comigo? Comigo? De repente, ela para, eu olho para trás para acompanhar os movimentos da moça e o que acontece? Bato num poste de meio tamanho que estava bem na minha frente. Na hora, um ou dois espertinhos que estavam do meu lado entenderam a situação. Hahahaha. Eu fingi que não era comigo, me endireitei e continuei andando, como se nada estivesse acontecendo. Ah, Berlim!

Dormimos, comemos, fizemos aquelas coisas normais que todo mundo faz e... Bueno, a gte também visitou os lugares lindos que a gente sempre sonhou. O Brandenburger Tor existe mesmo, de verdade, verdadeira. E tem mais um monte de coisas bonitas na cidade. O museu da DDR, por exemplo, é a coisa mais divertida do mundo. Lá a gente pode mexer em todas as coisas que estão expostas. O sonho de toda criança que é obrigada pela mãe a ir ao museu.

Fomos também a um teatro de gosto duvidoso, humor alemão de altíssima qualidade. Hahahaha. E... Não foi nem de longe a minha viagem dos sonhos a Berlim, porque o esquema não era muito o meu. Mas foi a viagem a Berlim, a primeira. E já valeu. Se tudo der certo, volto lá em janeiro. Agora com mais tranqüilidade, pra ser mais feliz.

P.s.: Para ver a maioria dos museus em Berlim, é preciso ter um dia inteiro livre. Não acredite que você vai entrar, ver rapidinho e vai dar tempo de fazer outras coisas. Eu passei de quinta a domingo em Berlim, e tudo que eu fiz foi ver três ou quatro museus (o da DDR, até que é pequeno. Conseguimos em umas três horas, eu acho). A noite, deu tempo de visitar o portão de brandenburgo, um ou outro monumento. Hahahaha. É uma loucura.

Se eu saí a noite? Nããão. Essa vai ser, se deus quiser, uma história pro meu próximo post de Berlim.

E as fotos? Dentro da máquina, eu ainda não consegui tirá-las de lá... ai ai...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Como anda a vida?

Sobre a vida noturna em Jena? Melhorou bem... Ui.


Primeiro: coloquei como terminantemente proibida a minha entrada em clubes com fama de nazis ou em que eu já tenha sido empurrada mais de duas vezes. Ou seja, parei de passar raiva. E quanto alguém me chama pra ir, eu respondo: “Desculpe, sou proibida de entrar lá”. Eles me olham com uma cara de “o que será que ela fez?” e tudo fica ótimo. Adoro a discrição estrangeira européia.

Segundo: a verdade é que não tenho 18 anos e, sim, 24, o que já muda certos conceitos de boas e más festas. Os Erasmus (estudantes estrangeiros) estão sempre por aí, na casa dos 18 a 20, o que os coloca no auge da animação. E não só por isso: muitos deles estão ficando longe do papai e da mamãe pela primeira vez, e querem curtir as festas! Tão errados?! Não... Lógico que não... Eu faria o mesmo. Mas não tenho saúde nem dinheiro, e, escolhendo melhor, só ganho.

Há um clube em Jena chamado Kassablanca. E o que eu descobri sobre ele é que é famoso em toda a Europa!!!! Sim, um clubinho aqui de Jeninha famoso em toda a europa. Por quê? Qualidade técnica impecável, djs de primeiríssima, espaço liiindo de morrer. Tem que ter um defeito? Tem: o preço não é de estudante. Mas vale a pena faltar a duas festas de estudantes pra ir ao Kassa uma noite só, moçada. O que mais tem lá? Shows lindos de viver. Outro domingo desse aí tocou uma dupla de irmãos brasileiros. Chorinho e samba, samba e chorinho, sei lá qual é qual. =) Só instrumentos, todos sentadinhos, e eu chorando de saudade da minha terra e pensando: Não há melhor jeito de se apaixonar pelo Brasil do que estando no exterior. Não há. Gustavo, inclusive, escreveu um post ótimo sobre isso, dizendo o que todo mundo queria dizer:

http://ogustavofoiali.blogspot.com/

O Kassa também é finalmente o clube alternativo com que eu tanto sonhei. Gente alternativa!!! Êêêêêê. Significa festa estranha com gente esquisita e até mesmo GAYS!! Sim, Gays. Outro dia teve uma festa de drags, todas as terças é bar gay. Hahahaha. Eu achei foi engraçado. Nunca fui ao dia de viado. Mas fiquei feliz, porque assim, como no Brasil, os lugares alternativos da Alemanha são lotados de gente estranha que é supereducada. Nunca fui tão bem tratada pelos alemães. Nunca recebi tantos pedidos de desculpa pelos encontrões que levei durante as danças! E eu finalmente elegi o meu lugar preferido pra dançar.

E o que mais?! Uma quinta dessas teve uma festa gay em pleno Rosenkeller. O que isso significa? Uma festa gay no centro da cidade tradicional, uma festa gay no bar mais estudantil e movimentado da cidade. E foi ótima também, pessoal. E não havia só gays lá. Conheci um monte de moços heteros e finalmente legais. =) Como eu amo festas alternativas! Como eu amo bicha dançando!!!! Quanta felicidade no meu coração.

Por fim, no mesmo fim de semana, tivemos a festa de aniversário da Annuka e o show dos queridos que vieram de belzonte só pra alegrar nossa semana no evento brasileiro. Nesse dia, vi também o documentário do Simonal com legendas em alemão. Inclusive, toda vez que eu ouço a história do Simonal, fico com a pulga atrás da orelha. Mais ou menos a mesma que eu tenho em relação à danada da Capitu. Um saco esse suspense.

Por fim, festejei até domingo de manhã, conheci um montão de gente mais ou menos doida e me diverti a valer. Esse post tem graça? Não. Mas eu precisava me redimir, porque andei só falando que Jena é um ovo em que não há nada pra fazer a não ser encontrar alemães que passam a mão na nossa bunda. E fiquei pensando... Se eu tivesse em belo horizonte e não conhecesse nada, eu COM CERTEZA ia parar em lugares tipo Sete Cumes (isso ainda existe?! Hahaha) e seria abordada por homens sem camisa e grosseiros. É tudo uma questão de futucar e achar a sua turma. E, sim, Marc, eu amo os alemães que eu amo. Eles são tããããããããããããão legais, ainda com todas as barreiras culturais que não me deixam entender certos comportamentos. Eu amo essa cultura, eu amo fazer supermercado e ter que enfiar uma moedinha de um euro no carrinho. Inclusive, POR FAVOR, leiam esse post do gusta sobre o supermercado. É maravilhoso e superdidático.

http://ogustavofoiali.blogspot.com/2010/11/fazendo-compras.html

Gente, tenho certeza que vou voltar de berlim com ótimas histórias pra contar. Esperem e verão! Não me abandonem só porque o meu aproveitamente nos últimos dois posts não foi o esperado.

Muitos beijos

p.s.: ja voltei de berlim. em breve, quentinhas da capital gelada e sob neve.

O tempo e a gente

Sim, eu sei. Há muito tempo eu não escrevo. Eu tenho tempo às quartas-feiras, e quarta-feira passada eu deixei passar. Essa quarta-feira, hoje, também está bem mais atarefada que o normal. Entretanto, escrevo, porque sei que compromisso é compromisso, e ele tem que ser realizado com ou sem tempo para isso.

Vou logo avisando que hoje estou sofrendo: estou doente – dores de garganta tão familiares, e amanhã viajo pra Berlim. Esperei essa viagem com todo o meu coração desde o dia que eu comprei o pacotinho de excursão. E, agora, estou doente. Belo saco. Tendo isso em vista, o post hoje parece ser menos honesto em matéria de humor. O que já aumenta bastante minha dívida com vocês, porque o ultimo também não foi lá esse primor. Sinto.

Sábado fez sol. Mas sol daqueles de cortar o coração. Saí de casa para almoçar com meus amigos Gusta e Carlitos e mais uma trinca de alemãs, e adivinha? Sol pra todo lado. Aquele sol lindo, que esquenta só um pouquinho, mas faz os passarinhos cantarem – e não estou descrevendo um filme da Disney. Até chegar à casa dos meninos é uma caminhada e tanto, e eu fui meio cantarolando, meio dançando. Eu senti uma felicidade tão legítima, porque era sem motivo. E percebi que a Alemanha faz coisas comigo, me deixa assim levinha de vez em quando. Aqui sofro das mesmas dores que sofria no Brasil – garganta, estômago, coração, não nessa ordem. E inclusive algumas dores são mais lacerantes e mais solitárias que no Brasil. Mas aqui nessa Jena tão pequena, nessa porra de caixinha em que eu resolvi entrar por cinco meses, eu consigo me sentir bem com uma sensação completamente nova de simplicidade. Simples assim.

Segunda nevou. Eu olhei pela janela e não poderia acreditar no que estava vendo. A chuva parecia grossa demais, a atmosfera parecia branca demais. Abri minha janela em um só movimento. E estendi a mão para fora, como se para pegar a brancura. Não peguei. Na verdade, na minha janela há uns fincos anti-suicidas (não sei como se escreve essa palavra, e a professora aqui tá com preguiça de olhar as regras de hífen). Cortei-me, sangrou. E eu que queria pegar o branco, só ganhei o vermelho mesmo. E um tanto bastante decente de vermelho, que sujou a minha janela. Quando eu fui limpa-la, com meu paninho azul, vi que floquinhos de neve-chuva tinham caído em cima da minha mancha vermelha. Sentei na cama, sem fôlego. Isso é final de poesia que acontece na vida real, no meio do dia. E, mais uma vez, a Alemanha me mostrou pra que veio. E eu a recebo, mais uma vez, com meus completos e reverentes (às vezes também irreverentes, rs) agradecimentos.

Nesse dia, saí de casa e continuou nevando até tarde. Tirei o guarda-chuva, e fiquei lá, feliz observando meu casaco salpicado de açúcar do confeiteiro doidão que acha que a gente é bolo. Claro, ganhei essa dor de garganta de que vos falo. E a sensação de que posso ser uma pretinha de bolinhas alaranjadas ou um mini-berlim recheado de geléia e salpicado de açúcar. E ainda é bonito o paradoxo que parece haver em SALpicar de AÇÚCAR. Viva o português! Agora, minha gente, não neva mais. Mas, da minha janela, tem uma montanha branquiiiiiinha. E as árvores dela, pessoal, são árvores de natal, verdinhas com pontinhos brancos. Eu olho pra fora e vejo Natal. Mein Leben schmeckt nach Weihnachten.

Mas todos os alemães, no fim das contas, acharam linda a minha embasbacação com a neve. Tirando foto e tudo do meu sorriso de criança descobrindo o mundo. Eles, entretanto, que tentavam me animar ainda mais, disseram: Mas isso não é neve, Ludmila, isso é Neve-chuva (Schnee-Regen). Você vai gostar mesmo quando vier a neve. Eu ri. E percebi com que loucura a gente se acostuma com as coisas. Queridos alemães do meu coraçãozinho, NEVE não é só NEVE, e NEVE-CHUVA não é só NEVE-CHUVA. Tenho que me lembrar disso pra chegar ao Brasil e tentar ver com olhos de enxergar.


E adivinhem? Enquanto escrevo esse posto passou um floquinho de neve-chuva na minha janela. Em homenagem a vocês, temos de volta nosso açúcar de confeiteiro.

Eu ainda tenho um tanto pra escrever. Vou escrever agora, mas fazer outro post. Sei lá quando publico. De repente, daqui a pouco. Hahahahaha

Amor, sempre.

domingo, 7 de novembro de 2010

Eu sou neguinha...

Oi, pessoal.

Eu achei que eu seria diferente de todos os outros intercambistas que conheço e que postaria com mais frequencia no meu blog. Pura ilusão! A verdade é que eu descobri que aqui as pessoas podem ter uma vida mais ou menos normal, de trabalhos e estudos, o que faz não sobrar tanto tempo como o imaginado para postagens de textos looongos como os que eu costumo postar. rs. Ok, ok.

Hoje, quem estiver esperando mais um dos meus textos bem-humorados de sempre, pode parar de ler por aqui. Rs. O assunto hoje é mais sério, finalmente. Neo-nazismo, cultura, complicações estrangeiras:

Bom, ao sair do Brasil, ouvi vários conselhos que achei bastante engraçados, do tipo: "cuidado com o neo-nazismo"; "cuidado que na alemanha você é preta"; "Não vai contando pra todo mundo seus pensamentos liberais, que você morre". Eu achei tudo isso uma bela palhaçada, e inclusive fiz várias piadas com esse conteúdo antes da minha partida. Certo, até certo ponto, é sim uma bela palhaçada, mas só até certo ponto.

Eu moro em uma cidade universitária que recebe muuuitos muuuitos estrangeiros, o que faz da nossa vida aqui bastante tranquila. Não temos medo de ir e vir, porque não precisamos mesmo ter, os casos de violência contra estrangeiros são tão raros que nem contam. Ainda assim, há um clima tenso em certas regiões da cidade um pouco mais distantes do centro. Há certos bairros em que a concentração neo é grande, e, logo, não é aconselhável passear por eles como turista bocó em copacabana.

O mais tenso acontece uma vez por ano. Em um lugar aqui perto de Jena acontece o encontro nacional da juventude neonazista. Como eu sei disso? Me contaram... Eu nao vivi e pode ser que nao viva, porque devo ir embora antes da data oficial. Como o encontro é aqui perto, o clima de Jena também fica meio tenso, principalmente entre os estrangeiros. Ouvi dizer que não é nada agradável, ninguém quer ficar andando por aí nessa época. Mas, na verdade verdadeira, parece que nada acontece praticamente. É direito das pessoas aqui fazerem encontros pra discutir quaisquer assuntos, então o governo também nao reprime esses encontros. Por outro lado, o governo é muito rígido com demonstrações neonazistas "mais enérgicas", como violência. rs.

Vocês lembram aquele club em que eu fui e sobre o qual escrevi aqui? Eu disse que foi uma palhaçada, que eu achava que o moço passou a mão na minha bunda e tals? Nesse bar, vez ou outra, eles não deixam os negros entrarem. Os negros chegam lá e simplesmente são barrados pelos seguranças louros e fortes. Sério! E as negras? Se elas forem jovens e atraentes, elas entram. Isso chegou até a parar no jornal aqui da cidade. Uma das pessoas que foi barrada colocou logo uma notinha no jornal. A primeira ironia da história é que o pub chama Havana Club. A segunda ironia é que as pretas gostosas entram. O neonazismo e o preconceito já foram menos safados. Rs. Um outro bar logo em frente ao Havana Club, o F-Haus, dizem que é pior. Tem concentrações mais regulares de nazis. Quem me falou isso foi uma alemã, que já namorou um cara da africa. Vai saber... Eu não vou lá conferir. Já fui uma vez, mas a festa estava tão ruim, que eu não aguentei ficar. A música era folclorica alemã. Quanto aos nazis? Não os vi, ou não os reconheci.

Sobre essa questão da cor, já há também histórias interessantes. Outro dia estávamos no bar e minhas amigas da Georgia soltaram que eu e o Gusta éramos pretos. Isso foi uma novidade pra nós, que nunca fomos chamados de negros no Brasil - ainda que sejamos pardos-, e começamos a conversar sobre esse assunto. Para elas, éramos pretos e pronto e acabou. A questão era a cor da pele, e elas nos mostraram como parecemos mais pretos do que os outros nas fotos. Hahaha. Realmente parecemos mais corados que os outros nas fotos, não muito dependendo da nacionalidade desses "outros", mas ainda assim na minha percepção as da georgia são tão pretas quanto eu, devido a cor do cabelo, à textura do cabelo, etc etc etc. Aí explicamos a elas que ficamos felizes em sermos pretos, que gostamos dessa identidade, ainda que não seja realmente uma identidade plenamente possível pra nós no Brasil. Explicamos todas as complicações, e elas demoraram a entender. Depois de tentarmos explicar a situação tim tim por tim tim, a pergunta essencial foi: "Por que vocês gostariam mais de ser identificados como negros do que como brancos se os negros têm menos dinheiro, menos acesso à educação, são vistos como mais próximos da marginalidade?" Essa foi uma pergunta bem mais difícil de responder. Tentamos, mas elas ainda ficaram pensativas, já que não seria vantajoso pra nós sermos negros.

Em uma festa, essa discussão voltou ao assunto. Dessa vez, eu estava rodeada de alemães, russos e havia mais um outro que, pela cor, deveria ser indiano. =) Novamente esse assunto voltou, sobre como a questão da identificação das raças é totalmente cultural, e uma alemã perguntou a um russo: "A Ludmila, pra vc, é negra?" Ele: "Claro que não! Tá doida?" E, olhando pra mim: "Não se preocupe. Você passou na prova." Nessa hora eu fiquei tão nervosa, tão nervosa, que todo mundo reparou. Fiquei puta. Aí ele falou pra eu nao ficar nervosa, que ele só tinha feito uma piada. Muito seca e com a cara pegando fogo, eu disse:

"Essa prova em que você disse que passei eu nem nunca fiz e não quero nunca fazer. Se isso foi uma piada ou não, eu não sei. Mas, se essa é uma piada comum entre os russos, eu vou te dar um conselho: Se voce encontrar brasileiros por aí, essa não é meeesmo uma boa piada. Inclusive não é piada, é preconceito".

Bom, o problema é que novamente nenhuma das pessoas entenderam porque eu tava tão puta. Na verdade, elas fizeram uma cara assim: "se você nao é preta, por que diabos tá nervosa, brasileira doida?" Nada fácil a vida de gente parda. rs.

Bom, mas voltando às feridas de Guerra alemãs, algumas coisas são aqui terminantemente proibidas. É proíbido falar por exemplo "Hitler". Quando queremos falar esse nome, por algum motivo, usamos a tática Harry Potter: "Aquele que não pode ser nomeado" ou "Voce sabe quem". Já até começamos a usar Voldemort, para ser engraçadinho. rs. Eu um dia esqueci e disse Hitler no ponto de onibus. Ui. O pessoal mais velho me olhou com cara de indignação, o mais novos com cara de perplexidade. Os estrangeiros riram. As coisas aqui ainda são tabus. Muitos jovens já são bem mais de boa com isso e não se incomodam com essas coisas. Até falam e comentam. Mas quem diria que o vilão de Harry Potter seria alemão, hein!? rs.

É claro que nao quero dizer com isso que a Alemanha é perigosa, que o neonazismo é forte e assustador. NÃO! Eu só estou dizendo que é verdade: aqui essa história está entranhada nos lugares e nas pessoas. Às vezes elas tentam esquecer, tentam ignorar, às vezes se indignam e fazem passeatas do tipo: "Não é possível comemorar enquanto a Alemanha existir" (essa eu vi com meus próprios olhinhos). Hoje perdi uma excursão para um campo de concentração aqui perto. Em breve vou lá sozinha e conto a voces.

Muitos beijos, sempre, e obrigado por terem lido até o fim.